Os centímetros da viabilidade do Porto de Santos

Nas últimas semanas, a autoridade portuária de Santos começou a enfrentar as consequências dos mais de 100 dias de interrupção de sua dragagem de berços.

Os serviços de dragagem no porto não têm conseguido cumprir o cronograma de operação pré-estabelecido. Um dos principais motivos é a dificuldade enfrentada pelas dragas visto que foi identificada a presença de obstáculos físicos diversos na superfície do fundo. Essa dificuldade vai criando um desalinhamento entre o cronograma de obra e o faturamento do serviço e gera situações complexas para a Autoridade Portuária e para o executor. Em alguns casos, chega-se a situações extremas, como o atual período sem dragagem de manutenção no canal. Nos trechos 2, 3 e 4, que vão do Ferry Boat até a Alemoa, a operação não é realizada há mais de 100 dias.

A dragagem em si é um velho problema do maior porto do Brasil. O estuário santista é composto por 65 rios que vêm do continente arrastando sedimento para o mar e causando assoreamento do canal e dos berços, tornando a dragagem uma necessidade permanente no local.

No último dia 3, a Capitania dos Portos de São Paulo reduziu de 13,2 para 12,7 metros o calado máximo permitido aos navios no cais dos principais terminais de contêineres e açúcar. Foram 50 centímetros de redução. Parece pouco, ainda mais comparado com a monstruosidade dos navios (50-60 metros de altura). Mas você imagina o que isso pode significar?

É fácil imaginar que, quanto maior calado, maior a capacidade de transporte de carga do navio. Na teoria, essa discussão é muito mais complexa e envolve conceitos como deslocamento da embarcação, pé de piloto, efeito squat, entre outros. No entanto, de forma prática, podemos assumir que, para o tipo de navio mais popular em Santos, cada centímetro de redução de calado, deixa-se de carregar de 7 a 8 contêineres. Em embarcações graneleiras, para cada 1 centímetro reduzido no calado, perde-se entre 100 e 150 toneladas de capacidade de carga.

Ou seja, redução operacional de 50 centímetros no calado significa uma redução de 350 a 400 contêineres que podem ser embarcados ou 5 a 7,5 mil toneladas, para navios graneleiros. O impacto dessa redução é devastador. Estudos preliminares de um dos terminais de contêineres afetados indicam que essa situação reduz em até um terço sua capacidade de movimentação. Esta capacidade é oficialmente é de 2,5 milhões de TEU*s por ano mas, na prática, é cerca de 1,65 milhão de TEUs/ano. Para os granéis vegetais (soja, açucar, etc), se considerarmos a capacidade de carga média de 65 mil toneladas dos navios em Santos, estamos falando de uma perda de 7,5% a 12% de capacidade de carga.

A questão da dragagem é então chave para a viabilidade financeira dos terminais do estuário e deve ser conduzida de maneira prioritária.

*unidade equivalente a um contêiner de 20 pés

#infraestrutura #porto

Categorias
Posts recentes
Arquivo
 
Telefone: (11) 3032 - 6742      contato@genoads.com.br      Rua Álvaro Anes, 46, Pinheiros, São Paulo - SP